[comecei a escrever querendo recapitulando 1 e 2 com exemplo mais simples, mas quando chegou a parte de equações, aproveitei e desenvolvi coisas novas]
Me ocorreu que talvez os temas abrangentes deixem as questões até aqui confusas, então vou colocar aqui o essencial das partes 1 e 2.
Embora eu tenha falado até do Egito, vamos pensar numa coisa mais simples:
Imaginem uma nave espacial como a Enterprise do Jornada nas Estrelas, ou ainda, 2001 - Uma odisséia no Espaço.
Para serem admitidos na nave,eles passaram por treinamento, o que quer dizer que sabem como agir e também boa parte de suas tarefas está prevista como parte da missão.
Quando a gente fala em missão, quer dizer que eles vão lidar também com situações inesperadas, pois estão explorando o desconhecido, o que quer dizer que parte de suas ações não estão previstas. Podem haver erros, acidentes e situações inesperadas.
Por exemplo a horta deles pode morrer por descuido de um membro da equipe (para evitar que isso ocorra que foram treinados), um problema técnico ou um alienígena comeu.
E qual seria a missão deles? Talvez eles tenham uma direção para ir, ou talvez a missão deles seja simplesmente permanecer vivos até algo acontecer (essa era a "missão" de parte da tripulação de 2001, que ficava hibernando até a próxima etapa da missão).
Ou ainda, colonizar um planeta. A questão é que até chegarem nesse planeta eles eram em número reduzido e sabiam cada um da sua tarefa, o acesso à comida e lazer era irrestrito pois todos sabiam que todos mereciam, mesmo se um alinígena tivesse comido a horta (uma coisa imprevista), isso não lavava a restringir a comida em detrimento de outro.
A medida que a população crescesse ou integrasse membros de outras naves, talvez não pudessem confiar tanto assim que todo mundo tinha feito sua tarefa, ou talvez não fosse possível unificar num grande cronograma todas as tarefas pois cada membro originário de uma nave presta contas apenas ao capitão da respectiva nave.
Ficando como uma grande empresa de um grande edifício, uma das soluções para saber que cada um está fazendo sua tarefa é colocar um cartão-ponto.
O cartão-ponto serve como um certificado de trabalho, e os membros da missão vão repartir os bens disponíveis confiando que todos estão fazendo a sua tarefa, que em situações assim pode ser simplesmente se manter vivo até que seja necessário usar a força/intelecto em momentos certos.
A questão é: e se essa população crescer, e alguém resolver abrir um McDonald´s, isso será um avanço ou retrocesso?
Quando abriu McDonald's na ex-URSS, isso foi encarado como avanço.
Numa colônia espacial talvez até alguns encarem como "opa, isso tá ficando familiar com a vida na Terra!", mas é de se lembrar que tinha miséria também.
Dentro dessa missão que é sobreviver e se reproduzirem, alguns vão defender que a mesmice e a dureza da rotina da missão espacial não é saudável e que fugir do esquema é bom até para a sanidade mental. Talvez alguém lembre que eles são uma espécie de mini-civilização e que não podem ficar estagnados.
Liberais vão defender que no início não seja abandonada a horta, aquela em que se planta como parte da missão e se distribui para todos os tripulantes (sem exigir nada em troca ou apenas o certificado de que bateu o cartão-ponto), mas que gradativamente ela seja abandonada para que cada um compre com $$ mesmo e o dono da barraca que fizer mais sucesso tem mais lucro e é estimulado a continuar, enquanto que a barraca da comida ruim tem prejuízo e ele abandona a atividade. Então teremos também desigualdade de rendas, gente que não estará cuidando da nave e sim cuidando de seu negócio, etc.
Tudo isso traria uma interessante discussão, filosófica inclusive. Num dos episódios de Jornada nas Estrelas, eles chegam a um pequeno planeta onde uns poucos seres humanos obedecem as ordens de uma máquina. Esses seres humanos não se lembravam como chegaram àquela terra, só sabiam que tinha sido gerações atrás. Eles obedeciam a máquina que controlava a vida deles. Kirk e cia desativam (ou destroem) a máquina pois ela tinha traços autoritários, e dizem para aquela comunidade que eles agora são livres. No final do episódio Spock faz um comentário mais intelectual de que essa história lembrava o mito de Adão e Eva, controle "divino", e que de certa forma eles é que estava introduzindo o "pecado original" ao permitir a liberdade no lugar da obediência cega.
Kirk e o médico fazem uma piada com as orelhas do Spock dizendo que ele tinha orelhas parecendo do diabo mesmo. Eles riem e o episódio termina.
Mas será que foi uma boa ideia mesmo? Na continuação de "2001", surge a dúvida se devem religar o computador HAL ou não. HAL significa ordenamento e gerenciamento eficiente de tarefas, muito útil para eles sobreviverem no espaço, mas também traria riscos, principalmente se HAL se voltasse contra os humanos.
Então o enunciado do problema é: supondo que os humanos devem sobreviver evitando episódios de um matar o outro, evitando desperdício de recurso, esforços inúteis, mas permitindo mudanças de comportamentos, noção de liberdade, "a gente não quer só comida, quer diversão e arte", como esse gerenciamento de tarefas(trabalho), recursos a usar (capital constante) e produção de resultados (produto ou mercadoria) circularia de uma forma saudável?
Muitos vão defender o capitalismo, dirão inclusive que o surgimento não só dos muito afortunados, como dos miseráveis faz parte do progresso, do caminho certo.
Recapitulando as partes 1 e 2 , temos:
- cartão-ponto = dinheiro-trabalho (Proudhon, Owen)
- troca direta de trabalho/ resultados do trabalho = dinheiro-trabalho de Owen, criticado por Marx como "tão dinheiro quanto uma entrada de teatro". As comunidades que os socialistas Owen, Saint-Simon e Fourier formavam, na mente deles devia ser uma coisa para o futuro e talvez até fossem gostar de Jornada nas Estrelas, etc se existisse TV naquela época.
- cuidar da horta como parte da missão espacial = esse serviço obrigatório lembra o exército, ou a corvéia dos tempos do feudalismo, em que camponeses tinham de dedicar um certo período do ano a construir bem-feitorias para o feudo/uso comum, como estradas.
- horta /cozinha central = monopólio
- introdução de atividades de produção de comida fora da horta e da cozinha central = concorrência
- liberdade econômica = discussão da melhor utilização de recursos pelo progresso. "Qual progresso queremos?" é uma pergunta válida.
As equações como
M = k + l
M = k + m
l = ∑M - k
e mais a
l-o-e-p (lei da oferta e procura)
representam uma tentativa de racionalizar que pode parecer irracional às vezes (principalmente se entre a tripulação aparecer um seguidor de Hayek). Em nome de alguns sacrifícios e infelicidade de uns, eles dirão que está sendo feita a melhor escolha para cumprir a missão que é sobreviver.
As fórmulas não servem apenas para calcular um ganho imediato, mas também para determinar a quantidade de itens que serão produzidos no próximo ciclo (uso da l-o-e-p como reguladora de quantidades racionais do que será produzido para evitar desperdício de recursos produzindo coisas inúteis).
A minha crítica ao conjunto de fórmulas acima é que permite aos marginalistas/ neoclássicos ignorar m (mais-valia/exploração) quando M + l < k (a mercadoria vendida com lucro, ou melhor, com lucro negativo, ou prejuízo em bom português; é menor que o custo, não cobre o custo).
E quando visto pelo lado da concorrência, a relação entre m e l (sendo m = l pelo menos no começo do livro 3 de O capital) fica mais complicada de se provar. Daí que talvez eu tenha sido cara de pau em já pular para o limite dessa questão, dizendo que ainda não conseguiram resolver o Problema da transformação (a conversão de valores em preços; soma de valores deveria coincidir com soma de custos).
Mesmo sem conseguir provar o pressuposto, disse que m ≅ l (mesmo com concorrência).
Pensando bem, o que quero dizer é que o valor produzido na produção reaparece na circulação, não é minha intenção discutir se ela realmente aparece como lucro (l) em sua forma monetária.
Por isso, ao invés de usar l, penso em usar mais m modificado (que saiu da produção e entrou na circulação)
mprodução → mcirculação
Ao mesmo tempo que falarei pouco de l, querendo preservar a evidência da existência de m (que aparece em formas modificadas), vou representar a o encalhe de mercadorias não-vendidas de outra forma (sendo esse encalhe uma das coisas que fazem diminuir o lucro).
∑M = Mv + Me
sendo:
Mv = Mercadoria vendida
Me = Mercadoria encalhada
E para calcular o lucro:
| Mv = k l = 0 (A venda de mercadorias cobre o custo de produção, não há lucro nem prejuízo) |
Mv > Me Mv > k Me < k l = + (positivo) (mercadorias vendidas maior que o custo = lucro) | Mv < Me Mv < k Me ≥ k l = - (negativo) (mercadorias encalhadas igual ou maior que o custo = prejuízo) |
Na tabela acima, temos uma forma de deduzir o lucro tornando autônoma a mais-valia.
k → M
k → Mv + Me
k + m → Mv + Me + mcirculação
OBS:
k < Mv + Me
k + m = Mv + Me
ou seja, o custo de produção mais a mais-valia produziu o total de mercadorias (∑M), sendo que algumas foram vendidas e outras encalharam. Na verdade, o m não devia aparecer, ou melhor, vezes deve, às vezes não (depende se queremos ressaltar o m ou não), ela está inserida dentro de k na produção (pois k = c + v ) e na circulação, elas às vezes está dentro de Mv e às vezes dentro de Me.
Se nada do que for produzido for vendido,
Mv =0
k + m → Me
k + m = Me
Se tudo que for produzido for vendido,
Me =0
k + m → Mv
k + m = Mv
Se, sem exploração se produzia um certo volume, e tudo era vendido, então o dono ganancioso, resolve aumentar a exploração (mais-valia) para produzir mais, mas o mercado estava saturado e nada do que se produziu a mais for vendido,
Mv =k (que na tabela representa a situação sem lucro nem prejuízo)
k → Mv
k + m = Mv + Me
m = Me
Se, (numa situação bizarra) a fábrica só produzia coisas incompletas e por isso não eram vendidas, e aumentando a exploração é que conseguiram produzir itens completos que foram vendidos,
k → 0
k + m = Mv
m = Mv (mas essa situação é bizarra e talvez irreal)
Contudo, o mais realista é encarar que m está normalmente dentro de uma parte do que foi vendido e do que ficou encalhado.
Exemplo (as frações podem variar muito):
k + m = Mv + Me
k = ⅔Mv (ou seja, a fábrica consegue, sem explorar, produzir ⅔ do que vende)
m = ⅓Mv + Me
Se bem que uma das terríveis consequências de encarar dessa forma, é que por dedução, numa situação em que se produziu Mv e Me , mas k = Mv (sem lucro nem prejuízo), quer dizer que sem a parte da mais-valia que produziu Me , a fábrica ficaria no prejuízo, ou seja, há mais-valia (exploração) mas não houve lucro!
Se bem que... é também possível o oposto: a fábrica não depender da exploração para produzir tudo que será vendido e um pouco mais:
Exemplo:
k + m = Mv + Me
k = 1⅙Mv (ou melhor, 1Mv e ⅙Me)
m = ⅚Me
Em situações assim parece que as únicas certezas são a de que há relação entre k e Mv (sendo que o limite é k = Mv , Mv > k = lucro; Mv < k = prejuízo) m às vezes nem parece existir e sua relação com Mv e Me é variável.
O lucro, tal como a mais-valia, tem relação variável com o que for vendido e encalhado. As cálculos que fizemos usando m acima, poderiam ter sidas com l. Mas na verdade a relação é mais complicada pois a relação entre m e l não são óbvias.
É que até agora supomos que as mercadorias têm preço fixo quando chegam ao mercado, mas na l-o-e-p, a abundância faz baixar os preços, de forma que quantidade demais afeta o lucro não só referente ao que não é vendido, mas ao que é vendido com preço mais baixo.
Rascunhando, é mais ou menos assim:
- abundância normal → Mv e Me com seus preços normais inalterados
- abundância excessiva → Mv e Me com preços baixos, até o preço da quantidade normalmente vendida abaixa
[OBS: gente, agora me ocorreu que ao invés de tornar os meus pressupostos mais sólidos, eu fico destruindo-os (!!!). Eu disse lá em cima que é possível calcular o lucro de outra forma, através de quantidades consumidas e encalhadas, mas daí acabei de mostrar que não é possível ver o lucro pela quantidade quando tem abundância excessiva! Ainda bem que esse é um dos fenômenos da l-o-e-p e não conto com a l-o-e-p nas equações que desenvolvi! ]
Bom, vale ressaltar que normalmente não se calcula separando Mv e Me . Normalmente, quando se fala M, se refere apenas às mercadorias vendidas, o que eu chamo de Mv .
Quando Caio me mostrou
l = ∑M - k
O ∑M dele é só do que foi vendido, enquanto que o meu ∑M é o que vendido e mais os encalhados.
Agora me ocorreu também que talvez seja por isso que muitos neoclássicos podem ignorar tanto a exploração quanto o desperdício de recursos: a utilidade marginal pode fazer com que só contem o que provêm do lucro da venda, podem ignorar a relação entre mais-valia e lucro ou do encalhe e prejuízo. Pode haver tanto exploração sem lucro como excesso consumista + desperdício dos encalhados sem lucro. Assim temos muitos problemas no capitalismo...
Vou falar da situação oposta também: a carência de produtos. A carência é mais atribuída ao socialismo, Paul Singer por exemplo fala em economia/cultura da escassez.
- quantidade normal → Mv e Me em quantidades e preços normais
- pequena carência → Me ≅ 0 há relatos de que para evitar desperdício de recursos, os soviéticos preconinzavam esse estado
- grande carência → Me = 0 ; Mv insuficiente. Na economia de mercado isso significa que a Mercadoria atinge preços abusivos (OBS: os preços podem ficar abusivos mesmo antes de Me = 0) e no socialismo significa o que Paul Singer chama de alimentar a cultura da escassez. Diz ele que isso é extremamente daninho pois mesmo sem alteração de preços, as pessoas passam a fazer filas e quando o produto que tava em falta no mês anterior chega, elas compram demais para estocar e não serem privadas de novo pela escassez. Mas quando parte da população compra para estocar, temos falta de novo, e para suprir essa demanda de gente que vai consumir e mais os que vão estocar, as fábricas remanejam sua produção para produzirem mais. Mas, ao fazerem isso, elas se preparam para uma demanda que não é permanente: só o consumo regular é estável, a estocagem tem o limite e as pessoas param de estocar quando acham que têm o suficiente. Algumas nem vão consumir a quantidade esperada pois vão consumir do estoque.
A economia de escassez bagunça muito o uso da análise de vendidos e encalhados como reguladora da quantidade correta de bens a serem produzidos/descontinuados. Não sei se Von Mises chegou a ficar sabendo desse fenômeno (muitos dos problemas da URSS eram ocultados), mas ele diria que esse é o castigo por desafiar o mercado.
Ou melhor, elas podem ocorrer no capitalismo também, mas pelo menos o erro de produzir muito confundindo a quantidade a ser estocada com a quantidade a ser regularmente consumida fica sob os ombros do capitalista e não da empresa.
Ou melhor ainda, esse tipo de erro de investimento pode ocorrer não só de confundir estoque+consumo regular, como também teve muitas empresas que se deram mal confundindo interessem momentâneo com interesse permanente.
Melhor ainda ainda, isso se chama superprodução e quando atinge muitas empresas ao mesmo tempo (ex: 1929) vira sim um problema de governos. Essas crises não dependem da produção excessiva, elas podem ser de "bolhas".
Melhor ainda ainda ainda, Stalin dizia que o socialismo estava protegido da superprodução e para isso pregava a produção apenas do estritamente necessário. Mas desencadear períodos de grande carência fez com que um problema parecido com o da superprodução existisse no socialismo!







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