terça-feira, 27 de agosto de 2013

rascunho: minha explanação econômica -parte 1

(explicação aos amigos Angela, Caio, Luiz) 
1- qual a dimensão do tema?

Caio disse que na hora que estávamos indo embora que tava conseguindo ter noção da dimensão de onde eu tava querendo chegar. De fato, como comecei minha explanação com k = c + v , isso é como um primeiro passo que não dava para ver o caminho todo. Daí que Caio muitas vezes comentou que não sabia aonde eu estava querendo chegar...

Bem, então vou mostrar a dimensão do debate, já que o único risco é o de parecer pretensioso no começo e depois nos cálculos simples tropeçar e a coisa não alçar vôo, mas tudo bem.

1.1 - Von Mises x URSS
Essa questão é conhecida como "Problema do Cálculo Econômico" (link Wikipedia), em que Von Mises diz que nos países socialsitas há psedomercado, com pseudopreços, pseudooferta e pseudoprocura.

O ponto de partida do debate foi um artigo de Mises de 1920, em que o economista negava categoricamente a possibilidade de se utilizar o cálculo econômico racional em um sistema econômico socialista. Especificamente, afirmava que em tal sistema não se podia fixar os preços dos bens de capital. Seu argumento principal era de que sem mercado, não há formação de preços, e sem formação de preços, não pode haver cálculo econômico, ou seja, se o governo é quem determina os preços, o cálculo econômico não é real. É falso. Além disso, Mises argumentava que o mecanismo de formação de preços só era possível mediante as relações de trocas de bens produzidos sob a base de um regime de propriedade privada .

Von Mises diz que uma economia regulada pelo Estado não funciona. Comentei com Caio que assim, a dinâmica da lei da oferta e procura defendida por Mises é "elegante". Discutimos um pouco o que quer dizer essa "elegância", e ela se refere à não necessidade do Estado monitorar a produtividade (que pode aumentar ou abaixar) para regular o bom funcionamento das trocas econômicas.

Na continuação do artigo da Wikipedia se lê:

Em 1944, Von Hayek agregou outra dimensão ao debate em seu Caminho da Servidão. Ele afirmou que, na prática, o planejamento central jamais poderia ter informações suficientes para tomar uma decisão racional. Em sua opinião, não há nada superior ao sistema de preços.
O esquema Lange-Lerner é estático, Hayek apontou este fato como sendo uma falha já que a economia é dinâmica. (...)
Debatemos que isso na verdade isso são os liberais teorizando, e que na prática é necessário o Estado, que vai mexer na cotação do dólar, etc. [um complemento dispensável: O engraçado é que tem os que dizem que mexer nessas cotações não quer dizer presença do Estado, são os defensores da autonomia do Banco Central. Bem, o Banco Central pode até ganhar autonomia, mas eles têm de admitir que a existência desse instrumento central já quer dizer que a mão invisível o mercado não funciona tão bem].

1.2 Crítica de Marx ao dinheiro-trabalho de Darimon (um proudhoniano)

Li Rosdolsky para ver como Marx elabora suas teorias. E para elaborar a parte do dinheiro, Marx vê que o dinheiro é uma mercadoria especial. Uma das mercadorias foi escolhida para efetuar trocas por sua durabilidade, possibilidade de armazenamento, etc. ex: Ouro e prata.

O proudhoniano Darimon propôs que o dinheiro não fosse vinculado à mercadoria, e sim diretamente ao trabalho. Convém lembrar que foi mais ou menos no século deles que começaram as propostas de não usar mais moedas de ouro/prata e sim usar papel. Antes, já tinha havido muitas guerras entre as nações para conseguir ouro/prata, e viajavam até as Américas para conseguir mais. O dinheiro em papel significava uma mudança enorme, mesmo que ela continuasse a representar o ouro.

Se o dinheiro de papel é atestado da existência do ouro, porque não poderia ser um atestado de trabalho?

As observações de Caio foram legais: provavelmente o que os proudhonianos queriam é dizer que o trabalhador tem direito a ser mais rico que os possuidores dos meios de produção.

Mas Marx diz que o dinheiro-trabalho não funcionaria, pois o trabalho pode variar em produtividade (ex: antes era necessário 8h para produzir pão, com o modernização da padaria precisaria apenas de 4h). Para o entendimento da natureza do dinheiro, é necessário escolher algo de pouca oscilação. Acabei usando o termo "inviável' para falar da opinião de Marx e Caio perguntou "por que inviável? Basta recalcular o quanto de trabalho deve equivaler nas trocas!". De fato não lembro se Marx usou o termo inviável, mas a questão é que Marx joga uma ironia muito felina em cima dos proudhonianos.

Marx diz que se é necessário um recálculo do conjunto, é necessário ter um livro de contabilidade geral que mede as produtividades de vários ramos. E se isso é necessário, é necessário um controle central, a presença do Estado. Marx vai mais longe e diz que para melhorar o funcionamento, porque não um comprador geral de todas as mercadorias, e se há um comprador geral, porque não também um produtor geral. Em suma, os proudhonianos queriam um ideal anarquista contra o Estado e Marx mostra que o dinheiro-trabalho vai contra o ideal deles.

Rosdolsky, na hora de expor a explicação de Marx complementou com uma palavra decisiva, que sem essa palavra eu não teria iniciado a minha investigação. ele disse algo como "e assim o ideal proudhoniano se transforma no seu oposto DESPÓTICO". "Mas peraí!", pensei, "Rosdolsky quer dizer que a presença estatal leva ao despotismo?" Rosdolsky é marxista, teria ele algo contra o Estado? Bem, muito: ainda acho incrível que ele tenha sido perseguido pelo stalinismo, nazismo e macarthismo!

[complemento: fui muito pouco na fonte de Darimon e Proudhon, mas além do ideia de dinheiro-trabalho, eles também tinham ideias como crédito gratuito. Algumas dessas ideias parecem mais polêmicas que viáveis, mas não vou afirmar dessa forma pois não fui à fonte.]

1.3: Então Von Mises x proudhoniano Darimon...

... o ponto em comum é a necessidade de controle central, que tem características de um Estado. Esse controle regula a cotação de trabalho, das mercadorias, da moeda e assim regula as trocas.

1.4 Por que em Owen não há Estado e mesmo assim tem dinheiro-trabalho?

Outro socialista utópico é Owen que falava em comunidades fechadas autosustentáveis. "Paralelogramas de Owen" que Marx cita em O Capital deve se referir à essa proposta. Outros que propunham comunidades foram Saint Simon e Fourier, o interessante é que embora a maioria dessas comunidades tenha se dissolvido, algumas tiveram vida longa, como o Familistério.



Mas voltando à crítica de Marx: ele diz que o dinheiro-trabalho em Owen é tão dinheiro quanto um ticket de teatro:

pág 505 de Rosdolsky (Gênese e Estrutura de O Capital), nota 24: 
Grundrisse, p71. cf Das Kapital, I, p100, nota 50: "Anotemos aqui que o 'dinheiro-trabalho' de Owen, por exemplo, estão tão longe de ser dinheiro quanto, por exemplo, uma entrada de teatro. Owen pressupõe o trabalho diretamente socializado, uma forma de produção frontalmente contraposta à produção de mercdorias. O certificado de trabalho apenas verifica a participação individual do produtor comum destinada ao consumo. Mas não ocorre a Owen admitir como pressuposto a produção de mercadorias e, todavia, querer contornar suas condições necessárias por meio de artifícios monetários" (tais como os que propunham os proudhonianos).


O papel-moeda em Owen equivale ao papel (ticket) para uma peça de teatro pois no teatro cada um faz seu papel, então o dinheiro nesse caso, além de ser um certificado de trabalho, serve como certificado de que cada um cumpriu seu papel na peça teatral.

Assim, o sistema de Owen não necessita de Estado pois não há necessidade de controle de cotações: se a produtividade não se altera, não é difícil chegar a um acordo coletivo de como a comunidade se sustenta com cada um fazendo seu papel.

[complemento: Nesse sentido, não há Estado nem dinheiro em missões espaciais pois cada astronauta foi treinado para fazer o seu papel. Se o número de integrantes de uma missão espacial se tornar grande (por exemplo, numa missão de colonizar a lua), talvez a camaradagem/solidariedade terá de dar lugar a um sistema em que ninguém fuja de sua tarefa, ou, cada um ganha o certificado de que cumpriu sua parte da missão e por isso tem direito à comida, lazer, etc.]

1.5 Egito antigo: medo de mudanças que desintegrassem a civilização

Essa história de cada um fazer seu papel era tão importante no antigo Egito que a mobilidade social não era permitida: os que nasciam pobres tinham de ser pobres, e os ricos, ricos. Até mesmo os ofícios deveriam ser hereditários, e havia respeito à técnicas tradicionais na manufatura de alguns itens. O medo de que mudanças desestabilizassem a civilização era tão grande que os reis casavam entre si, e seus filhos nasciam até com deficiências de origem genética por causa do cruzamento de parentes próximos.

Se Egito é um caso extremo de mudanças na ordem social, esse medo existe até hoje: tem gente que tem medo da ascenção da nova classe média pois isso poderia afetar os preços de bens de consumo que a classe média tradicional consumia, etc.

1.6 Em suma (Mises, Darimon, Owen, Egito)

Não é difícil pensarmos em formas de criar uma sociedade sustentável se há não há mudanças nela. E sociedades precisam de trocas entre seus membros. O dinheiro pode assumir várias formas desafiadoras desde que essas trocas sejam conhecidas e não haja mudanças. Ela pode ser inexistente numa colônia espacial (eu nunca vi moedas em Jornada nas Estrelas), ela pode estar amparada numa mercadoria não-durável (a moeda pode até ser um picolé, desde que todo mundo carregar freezer ao invés de carteira e dê tempo para fazer as trocas antes do derretimento. O papel também tem validade e o Banco Central recolhe as notas velhas para destruição, mas até isso acontecer ela já serviu de instrumento de trocas), e ela pode até ser amparada em trabalho ao invés de mercadoria se há troca de certificados de trabalho.

Mas havendo a necessidade da sociedade evoluir, em Mises a lei da oferta e da procura é o ideal, enquanto que no proudhoniano Darimon, Marx diz que a variação na produtividade do trabalho já traria problemas ao dinheiro-trabalho.

1.7 a lei da oferta e procura como reguladora da quantidade de itens a serem produzidos

De fato a dinâmica da lei da oferta e procura é tão flexível que em tese, se houver um grande tsunami num país, destruindo a indústria nacional e a população acostumada a comer arroz e trigo para carboidratos tivesse de passar a comer milho e batata, em alguns ciclos, a lei da oferta e procura regularia a quantidade e o preço de milho e batata, de modo a produzí-las em quantidade adequada.

[claro que isso é apenas em tese, pois na prática seria uma tragédia que dará muito trabalho aos economistas. Entre outras coisas porque é necessário fazer previsão para não produzir itens a mais que serão desperdiçados e se um item é de vital necessidade, não é possível permitir que ela chegue em preço demasiadamente alto para a poulação só porque ela é escassa e portanto valorizada pela lei da oferta e procura.]

1.8 conclusão desse tópico: o desafio

O desafio então é pensar numa outra forma de regular as trocas e determinar a quantidade de itens a serem produzidos sem recorrer ao à dinâmica da lei da oferta e procura do modo como Mises pensa.

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