sexta-feira, 30 de agosto de 2013

rascunho: explanação econômica parte 5

Sobre o que eu disse no final da parte 4, me ocorreu que talvez os marginalistas no começo também sofreram para demonstrar a proposta deles. Talvez até a dinâmica ser visualizada em movimento, era uma coisa com falhas que desafiou o valor-trabalho de Adam Smith. Só que tendo sido compreendido, foi tão aceita que hoje em dia os livros de administração (minha irmão fez ADM na USP) nem contam que havia uma contradição entre a ideia de Smith e o marginalismo (aliás minha irmão nem sabia desses termos "marginalismo", "neoclássicos", foi passado a ela como se as teorias econômico-administrativas atuais tivessem se desenvolvido sem conflitos, uma coisa linear para formar "a economia", se é que vocês me entendem).

Me esforçarei para que vocês entendam a dinâmica da minha proposta, pois imagino que quando conseguirem visualiza-la em movimento, a partir desse movimento será possível até mesmo corrigir as falhas iniciais.

5 -a natureza do que é oferecido às pessoas

Estamos falando da relação entre coisas animadas e inanimadas, que poderia representar respectivamente por ♣ e ♦.

Então como se estabelecem as relações entre

(animadas) e(inanimadas) ?

Marx diz que se as coisas forem encaradas enquanto valores-de-uso, não é possível haver troca ente elas, pois cada coisa é única.

Para que seja possível a troca entre as coisas por $, Smith, Ricardo e Marx foram pelo caminho de estabelecer que o que há de comum entre eles é o trabalho (valor-trabalho). Já os marginalistas falam em utilidade marginal,e de qualquer forma, o que todos querem é

  ↔ $

Mas o $ (dinheiro) apesar de servir de intercâmcio, ela mesma é uma coisa (inanimada).
$ =

Até agora nunca tinha ligado muito quando Marx falava da natureza do $, mas agora acho importante para entender como ela é conversível.


5.1 As trocas e divisão consumidor / trabalhador

As trocas entre mercadorias e serviços são feitas mais ou menos assim:


  ↔ $
$ = dinheiro-trabalho
= mercadoria que contém apenas o equivalente a v (custo do capital variável)
= serviços prestados, o que também configura mercadoria. Mas no nosso esquema pode ser serviço público.

Não podemos esquecer que existem trocas por causa da presença do
= ser humano (que no famoso esquema representei por boneco de palito)

$ (ser humano recebendo seu salário)
$ → (troca do dinheiro por mercadoria)
$ → (troca do dinheiro por serviços)
$ → ♦/

Lembrando que 
 
↪✍ 

é a representação em símbolos do desenho:  

 De forma que  
---na circulação---$ → / (consumidor compra)
---na produção----↪✍ $ (trabalhador recebe salário) +  /(fruto do trabalho)

O que eu disse da paridade consumidor/trabalhador (✍ /☻) vem disso.

Isso não quer dizer que o trabalhador precise consumir o que produz, nem que cada $ represente apenas 1 moeda que deve ser trocada por 1 mercadoria. $ pode representar um conjunto de notas e moedas (digamos 15 moedas), e a mercadoria não ser única, mas representar 15 unidades. Aliás a mercadoria pode variar muito de forma, e podem 15 biscoitos equivalerem a 3 bolos (ou seja, numa troca direta 5 biscoitos = 1 bolo).

Ex:
♥1 produz biscoitos
♥2 produz bolos
♥3 produz suco

 ♥1 $ 1 bolo, 5 biscoitos, 1 copo suco
↪✍
$ 15 moedas (salário) + em foma de biscoitos

 ♥2 $ 1 bolo, 2 copos de suco
↪✍ 
$ 15 moedas (salário) + em foma de bolos

 ♥3 $ 1 bolo, 10 biscoitos
↪✍
$ 15 moedas (salário)  + em foma de suco


Dessa forma, não só não é preciso consumir a própria produção como há liberdade de escolha do que consumir.  E também ♥ não precisa ser uma pessoa, pode ser uma equipe de pessoas. Suas remunerações também podem ser diferentes, pois nem todo serviço requer igual tempo de trabalho. É válida a antiga observação de Adam Smith: trabalhos iguais, remuneração igual (ignorada no capitalismo atual, principalmente pelas transnacionais).

Podem até reclamar que pelo exemplo que dei, embora haja escolha, as pessoas tiveram de consumir o que produziram e que talvez tenham até sido obrigadas a consumir para não deixar sobra (Me = 0), mas mais para frente as sobras serão possíveis também.

Colocando de forma mais matemática: 

 ♥1 1$ 1, 2, 3
↪✍1 $ + 1
 ♥2 2$ 1, 3
↪✍2 $ + 2
 ♥3 3$ 1, 2,
↪✍3 $ + 3

5.2 Serviços públicos 

Se ♥3, ao invés de fazer suco, presta um serviço público, como recolhimento de lixo, temos de excluir o suco e contar que ele produziu um serviço, que todos irão consumir/usufrui. Mas se não fosse um serviço tão tipicamente estatal, seria um serviço-mercadoria que fica opcional para ser usufruído ou não. Uma das vantagens do nosso esquema é que acaba com a dicotomia entre o que é oferecido pelo Estado ou por empresas privadas. Isso é bastante saudável já que essa discussão tem produzido muita injustiça (dão pouco valor ao que o Estado oferece). Neoliberais também querem acabar com essa dicotomia, mas eliminando o que é estatal e tudo teria de ter preço (e muitas vezes são falsas as promessas de que o que passa a ser cobrado aumenta de qualidade).

Ao invés de considerar que todos vão consumir bolo, é mais certo que todos vão consumir/usufruir do serviço prestado por ♥3 (recolhimento de lixo, representado por por se tratar de algo animado):

 ♥1 1$ , 2
↪✍1 $ + 1
 ♥2 2$ , 1
↪✍2 $ + 2
 ♥3 3$ , 1, 2
↪✍3 $ +

Na verdade é meio gozado como tem liberais imaginando uma utopia onde não existam os serviços estatais. Talvez eles imaginem casas do futuro onde ao invés de recolhimento de lixo, tem incineradores/recicladores portáteis, ou ainda carros voadores que não precisem de governos cuidando do asfalto, etc.

Por excluirmos o suco e introduzido a coleta de lixo, fica parecendo que muitos vão preferir menos serviços públicos e mais mercadorias. Temos assim a volta do debate Estado x iniciativa privada, aqui ela difere do debate bem-estar social x neoliberalismo pois tal debate se refere ao âmbito macro, é uma crítica ao gasto com luxo dos políticos, burocracia e impostos excessivos, sendo que dizem que com menos impostos e burocracia, a iniciativa privada conseguiria atender melhor os consumidores. Aqui, embora os ecos desse debate macro possam ecoar, estamos falando do âmbito micro. Não estamos falando de gastos luxuosos dos políticos nem de burocracia. Como no nosso esquema a mercadoria se assemelha ao serviço, também não há diferença entre gasto com impostos e gastos com compra.

Pode ser que isso estimule a vigilância dos cidadãos que estarão mais conscientes que ao escolherem ter um serviço público, no nosso esquema isso representa diretamente a exclusão de uma mercadoria (enquanto que a relação entre impostos e iniciativa privada não é tão óbvia). Como o destino dos impostos fica menos nebuloso, creio que a relação dos cidadãos com os serviços pode melhorar pois os cidadãos estarão mais conscientes, nem indiferentes nem exigentes demais em relação ao que é público.

5.3 o que o Estado oferece = comportamento previsível 

Em relação às mercadorias, liberais poderiam dizer que em teoria, com a concorrência não há garantia de algo será comprado, principalmente se não é oferecido garantia de qualidade aos consumidores. Criticam o Estado dizendo que o monopólio cria situações em que sendo o Estado único provedor do serviço, a qualidade do serviço pode ser ruim. Eles vêem com mais simpatia as licitações que o Estado faz, em que várias empresas concorrem com suas propostas e a empresa ganhadora acima um contrato e durante aquele período fica sendo a provedora daquele serviço ou fornecedora do produto que será adquirida pelo Estado e repassada aos cidadãos. Dependendo de que serviço/produto há críticas pontuais de que seria melhor a concorrência permanente e não apenas no momento da licitação, mas de qualquer forma o x da questão é que dessa forma, o comportamento do consumidor fica previsível (pois eles são "obrigados" a consumir) e isso se refere na produção também, pois havendo essa estabilidade/previsibilidade, o planejamento de suas atividades também fica mais fácil.

Já que eliminamos a diferença entre o que o privado e o público oferecem, a pergunta é se há previsibilidade também no que a iniciativa privada oferece. As considerações são de que:

  • havendo monopólio há muita previsibilidade, mesmo sem garantia de qualidade
  • há razoável previsibilidade quando o setor tem empresas consolidadas e não parece que chegarão novos concorrentes. A qualidade pode variar, de melhor a pior, mas se os consumidores estão acostumados a pagar mais caro pelo melhor e mais barato pelo pior, e esse comportamento está consolidado, a previsibilidade continua bastante razoável e as empresas podem investir em outras atividades (ou na melhoria tecnológica da mesma atividade) sem o medo de cometerem o erro de terem gasto um dinheiro que deviam ter deixado na atividade principal. Por exemplo o fabricante de laticínios pode pensar em entrar no ramo de biscoitos, ou investir na Bolsa, sem temer que isso comprometa a sua posição no ramo de iogurtes. 
  • a previsibilidade é prejudicada quando o setor é novo e nem as empresas, nem o comportamento dos consumidores estão consolidados. Quanto à qualidade, ela pode ficar entre 2 extremos: a qualidade é alta se nesse ramo esses muitos concorrentes oferecem alta qualidade e quem oferece o de menor qualidade logo é eliminado do mercado. Mas se todos costumam oferecer qualidade baixa, quem investe mais e tenta oferecer algo de maior qualidade por preço maior é que está se arriscando.

Essas coisas são de conhecimento dos economistas/administradores e minha irmã comentou que essas coisas só complementam e não desafiam a l-o-e-p (ou seja, tentar prever o comportamento não desafia a "regra" de que os produtos devem se submeter à procura para medir a receptividade por parte dos consumidores).

Uma outra abordagem é pela natureza do serviço/produto. Dependendo da natureza, elas têm de ser oferecidas pelo Estado (e daí entram na situação estável do monopólio) e outras são de itens essenciais (como a cesta básica) que se sabem que serão compradas (até com previsibilidade de que os consumidores de classe baixa tentarão escolher os itens mais baratos e os ricos os itens mais refinados), e não correm o risco de não serem comprados, como acontece com os supérfluos.

Esse assunto tem relação com o que coloquei nos pressupostos de que o comportamento dos consumidores não será pelos preços, e de fato ainda não consigo preencher a lacuna de explicações que faltam... mas o lado bom é que na hora que consegui introduzir a concorrência benéfica (aquela que traz qualidade aos produtos), ao mesmo tempo consegui introduzir a possibilidade dos serviços públicos ganharem concorrência e não precisar da determinação do monopólio. Isso mostrarei mais tarde.

[OBS: esse papo de concorrência e qualidade me lembrou que certa vez comi X-salada de R$ 0,50 (faz mais de 10 anos atrás) tinha os requisitos mínimos para justificar a nomenclatura: tinha uma fatia fina de hambúrguer, vinagrete para justificar o "salada" e queijo ralado para justificar o "X". Então no ramo de hambúrgueres, a concorrência cria subdivisões para cada faixa de consumidor e elas ficam estáveis também: para os consumidores de rua têm os sanduíches de baixa qualidade e os vendedores de rua conseguem ter previsibilidade da sua clientela. As lanchonetes conseguem também ter estabilidade oferecendo os de qualidade média, a novidade (paulista) talvez fique nos hambúrgueres gourmet, onde quem oferece mais qualidade conquistará e ainda não se estabilizou a quais casas se consolidaram nesse segmento.]    

5.4 Quem fabrica $

Está faltando a produção do $. Nesse ponto, relembremos que $ é uma mercadoria especial. Como na nossa proposta falamos de dinheiro-trabalho e não dinheiro-mercadoria, a dinâmica é um pouco diferente mas mesmo assim é necessário uma mercadoria para representar o dinheiro. Precisamos de ♦(algo inanimado) para representar $, pode ser metal para fabricar moedas, ou papel para fabricar cédulas (ou para fabricar bilhetes de teatro, talvez observasse Marx irônico). Mas e se para certificar o trabalho não fosse necessário moedas nem células e sim apenas bater o ponto? Nesse caso, precisamos de pessoas que vão fazer a manutenção dos cartões-ponto, ou seja é um serviço. Assim ao invés de $ = ♦ teremos $ = ♣. Mas e se não temos nem cartão ponto e estamos dentro de uma nave espacial como imaginamos na parte 3? Aí também temos um serviço, como do computador HAL que estará cuidando para que tudo se mantenha conforme os planos da missão. Mesmo sendo HAL uma máquina, podemos considerar seus serviços como algo animado, $ = ♣.

Assim, quando falamos de $, não estamos falando apenas da moeda em si, estamos falando de um sistema que cuida de garantir que a troca ocorra de forma tranquila, tal como o Bando Central que emite cédulas novas e recolhe as velhas. Eles também criam cédulas mais seguras para evitar falsificação. Provavelmente se lhes fosse permitido um gasto ilimitado, não só teríamos cédulas impossíveis de falsificar, como talvez até mesmo difíceis de roubar pois cada cédula teria GPS. Daí que a boa pergunta é: o quanto de dinheiro pode-se investir no Banco Central? (o que soa engraçado: o quanto de dinheiro a sociedade pode gastar com o fabricante do dinheiro?)

A discussão do custo do dinheiro deve ter sido interessante na época de Proudhon. Eles viu como uma novidade boa o dinheiro de papel. Proudhon falava em dinheiro de papel e em crédito gratuito, vendo Proudhon com preconceito, isso até pode soar como propostas irresponsáveis de confiar nas pessoas sem pensar na sustentabilidade do conjunto, não fui muito na fonte de Proudhon, mas encontrei sinais de que não era tão irresponsável assim.

De qualquer forma, o papel em relação ao ouro logo nos faz perguntar: levando em conta que as nações tinham muito trabalho para conseguir ouro, tendo de fazer escavações em locais longínquos, fazendo guerras para conseguir ouro de outra nação, etc, que novidade o dinheiro de papel traz considerando-o como objeto menos custoso que o ouro?

A resposta é que se é menos custoso, essa troca de uma mercadoria-referência para outra é benefíco ao sistema pois o custo que era necessário para manter essa mercadoria-referência pode ser repassada para outra atividade.

Na verdade nem precisamos trocar de material: se um reino estabelecer que a partir dali suas moedas terão furo no meio (como a moeda de 5 e 50 ienes no Japão), economiza-se metal e mais moedas podem ser cunhadas. o menor custo foi convertido em mais moedas.

Esse custo menor pode ser convertido em outras coisas. Se ao adotar novos materiais/tecnologia menos trabalho humano é necessário, esse trabalho humano economizado pode ser convertido em algo mais útil que fazer mais moedas.

Daí que se é possível liberar parte das pessoas e verbas que antes eram usadas para fazer moedas no Banco Central, o governo pode realocar esses funcionários e recursos em outro serviço para a população (o termo burocrático para realocação de pessoas é "desvio de função").

E essa é uma forma de
$
sem intermediação do consumidor/cidadão. Ou melhor: pode aparecer como proposta de realocação para o cidadão aprovar num plebiscito, já que no meu esquema esses fluxos são mais fáceis de entender por não envolverem a burocracia.

O esquema inicial, incluindo o $ ficaria assim:

 ♥1 →1(⅕)$ → , ⅕2, 1, 3
↪✍1 → $ + 1
 ♥2 →2(⅕)$ → , 2, ⅖3
↪✍2 → $ + 2 (=15 biscoitos)
 ♥3 →3(⅕)$ → , 2, 1
↪✍3 → $ + 3
 ♥4 →4(⅕)$ → , 2, 3
↪✍4 → $ +
 ♥5 →5(⅕)$ → , 2, 3
↪✍5 → $ (salário próprio) + $ (♦/5)

As 3 coisas que todos têm acesso são o dinheiro ($), o serviço público (♣) e 3 biscoitos (da produção total de 15 biscoitos por ♥2), sendo que esse último item chega às pessoas por escolha pessoal da compra e coincidiu de todos quererem.

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